Abra espaço pra você na lista infinita de demanda alheia
- Célia Fellipelli

- 9 de jun.
- 3 min de leitura

Ao mesmo tempo em que sou adepta das tecnologias e tudo que possa facilitar o nosso dia a dia, ainda gosto de usar papel e caneta, quando se trata de organização diária. Sempre tive esse hábito e o mantenho até hoje, dar “check” na lista de tarefas do dia gera uma sensação de dever cumprido maravilhosa, especialmente em uma virginiana convicta, como eu e que ainda por cima tem um certo déficit de atenção. No entanto, esses dias, quando chegou o fim do dia, tinha riscado tudo da minha lista, menos coisas para mim mesma. Admito que foi decepcionante.
Tenho certeza de que isso acontece com praticamente 100% das mulheres. Talvez seja uma questão cultural, o chamado patriarcado estrutural, mas melhor não entrar nesse mérito. Só sei que no fim das contas, as atividades do trabalho, da casa, pros filhos, pais, marido, qualquer coisa fica em primeiro lugar, menos nós mesmas. Ao me pegar repetindo esse modus operandi, liguei um sinal de alerta. Não vou me deixar entrar novamente nesse ciclo vicioso de frustração, culpa e sobrecarga, porque só eu sei o que acontece quando o silêncio chega, ombros duros como pedra, pensamento acelerado, desejo minguado, noite mal dormida e um cansaço sem fim.
No climatério, esse excesso, que, na maioria das vezes, é mental, fica exacerbado, com impacto direto na qualidade de vida e, principalmente, na saúde. Aquela barriguinha saliente que insiste em crescer está relacionada com a queda de estrogênio. Tal declínio provoca o deslocamento de lipídios e gordura corporal para região abdominal, elevando o risco de doenças cardiovasculares. Tanto que, de acordo com dados recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS), as doenças cardiovasculares respondem por um terço das mortes no mundo, com 8,5 milhões de óbitos por ano, ou seja, mais de 23 mil mulheres por dia. Entre as brasileiras, principalmente acima dos 40 anos, as cardiopatias chegam a representar 30% das causas de morte, a maior taxa da América Latina.
Pior, essa taxa de mortalidade, segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), é o dobro do número de mortes em relação a todos os tipos de câncer que atingem o aparelho reprodutor feminino. Ou seja, cuidar de si mesma é uma questão de sobrevivência.
Ao levantar esses dados assustadores (pasmem, tinha muito mais de onde saíram esses, mas preferi não os trazer aqui para não escrever um compêndio científico), decidi voltar a me colocar em primeiro lugar na minha lista de tarefas. A providência imediata foi agendar uma massagem. Foram quase duas horas de extremo conforto e relaxamento e o melhor de tudo, não senti nenhuma culpa, muito menos pudor em comunicar o pessoal de casa que estava precisando desse momento.
Sei que algumas podem estar pensando, que se não fizerem determinadas tarefas, ninguém as fará. Entendo e minha recomendação não é pra deixar de cumprir suas obrigações, mas lembrar que se você não estiver bem, não estiver inteira, vai chegar um momento em que não vai poder fazer o mínimo, muito menos socorrer os outros. O que quero é que avalie se tudo realmente depende de você, que comece a se priorizar e reservar momentos para si mesma, nem que sejam pequenos intervalos diários.
Não é sempre que posso me presentear com uma massagem, então lanço mão de iniciativas rápidas que fazem uma grande diferença. Por exemplo, a técnica de respiração 2-6, inspire 2 segundos e expire por 6, durante 2 ou 3 minutos. Enquanto faz esse exercício, procure reparar onde o corpo se prende, está tensionado e suavize-o internamente, a ideia é desativar o modo de alerta, de luta-fuga, que nos deixa em constante estresse. Questione-se, “do que eu preciso agora?”. Às vezes é água, em outras, silêncio e em muitas, é dizer “não, hoje não”. E se você também adora uma listinha, anote o que está sentindo naquele dia ou momento, do que está precisando e o que é possível ser feito hoje. Por incrível que pareça, isso vai te dar clareza de pensamento e objetivos, que acabam vira ação, quando cabe na agenda e no corpo.
Lembre-se, sempre que for adotar uma dessas ideias, ou todas, coloque o celular no silencioso ou naquele “não perturbe”, que ele nem vibra. São poucos minutos preciosos, dedicados à pessoa mais importante da sua vida, você.



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